segunda-feira, 13 de novembro de 2017

Artigo: Uma arma em Casa


Por Francisco Costa, correspondente do Blog do Roberto Fernandes em Macaíba

Nas últimas semanas, uma notícia não me saiu da cabeça: A tragédia do menino em Goiânia que atirou nos colegas e só não matou mais porque quando estava recarregando o revolver foi rendido por um professor. Fatos semelhantes já aconteceram e irão acontecer, mas fica a pergunta será que não temos como evitar isso? Li várias reportagens sobre o ocorrido com comentários que especialistas e lembrei-me de outro semelhante que houve em Macaíba. Ha alguns anos atrás, duas adolescentes saíram da escola e foram a casa de um tio delas. Como não havia ninguém, a "sobrinha" resolveu mostrar o revolver para a amiga, dai veio a fatalidade. 

A arma foi disparada e matou a amiga. Até hoje, ambas as famílias tentam reconstruir suas vidas e seguir seu rumo normal. A adolescente que disparou a arma nunca mais foi a mesma, teve depressão e saiu da escola, a família mudou-se e foi morar em outra cidade. A família da adolescente que morreu também se desestruturou, o pai vendeu a casa, pediu demissão e se mudaram da cidade. O fato caiu no esquecimento dos outros, mas a cicatriz continua a marcar as inúmeras famílias vitimas de armas de fogo.


Mas, voltando ao caso recente, análise de todos os tipos de como isso acontece sempre aparece, umas para camuflar a situação anterior e outras para provocar um debate maior sem chegar a horizontes maiores.  Alguns questões ainda não foram esclarecidas devidamente e se forem, não mudaram o que já é realidade: o uso de armas de fogo e o porte delas para qualquer cidadão é um risco para a sociedade de maneira geral. Guardar a arma num lugar e as balas outro lugar não evitaria que alguém fosse a sua casa assaltar e desistisse. Ter um revolver no carro não vai constranger quem irá toma-lo de assalto.

O problema é bem mais complexo e amplo do que podemos imaginar. Temos que assumir a responsabilidade de mudarmos a ideia de que a dor dos outros é apenas deles. Estamos vivendo num período de soluções imediatistas para problemas bem mais profundos historicamente, pois não queremos raciocinar de forma complexa  sobre outros ângulos o tema da violência e o uso de armas de fogo, o que gera a "naturalização" dentro do nosso cotidiano desses fatos.

A sociedade brasileira se construiu com violência e ódio em cima de negros e índios, com brutalidade sobre os pobres e opressão a cidadania das classes inferiores. O Estado autoritário se instalou de maneira silenciosa no nosso dia a dia que  nem somos capazes de pensar em viver sem o mesmo. As instituições religiosas estão lotadas de fieis que ouvem pregações iradas contra os outros do que sermões pacifistas. 

Os programas sensacionalistas que dominam os horários da televisão põe mais lenha na fogueira do uso da violência como solução a própria violência. Certa vez, um policial me convenceu com argumentos simples porque não devemos ter armas em casa. Um policial tem o cotidiano cheio de momentos onde ele usa o revolver como ultimo recurso contra o bandido. Por sua vez quem faz assaltos e comete crimes também sabe manusear um revolver mais do que alguém que compra uma e espera um dia usá-la num certo dia.


Podemos desconstruir a tola ideia de ter uma arma em casa pode nos dar mais "segurança" e evitar mais acidentes, envolver mais as pessoas e instituições na campanha de desarmamento, uma educação pacífica entre crianças e jovens que estão mergulhados nos filmes e jogos eletrônicos violentos. As dores silenciosas e esquecidas dos que morrem por motivos banais devem se reverter em maneira de pensarmos coletivamente a nossa sociedade, o que queremos e como podemos mudar essas tragédias anunciadas sendo a favor ou contra a compra de armas pelo cidadão comum. 

Transformar a dor em experiência que sirvam de amadurecimento para uma sociedade sem arma e sem violência. Afinal, já perdemos muitos cidadãos para as mortes com armas de fogos e isso já é suficiente para a guerra armada que finge ser uma sociedade de ordem e progresso.

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