terça-feira, 5 de dezembro de 2017

Apodiense, doutor em educação escreve sobre tema que vereadores criaram lei em Apodi

Por Roberto Fernandes – Da Redação


No Tabuleiro dos Romanos, uma comunidade que se situava em uma área arenosa mais elevada no grande mundo da Várzea do Apodi, os moradores de lá, com quem convivi no início dos anos 1970, não aceitavam o fato de que o homem tivesse pisado na lua. Eu tinha, então, um amigo que era dos Romanos, o  Elias, que fazia um muxoxo muito próprio quando eu lhe falava que, sim, o homem tinha pisado na lua. Eu comentava as notícias que tinha ouvido no rádio e ele retrucava dizendo que era tudo mentira, pura invenção.

Há décadas, eu não sei de Elias. Ao longo dos anos, a comunidade dos Romanos foi sendo engolida pelas pequenas propriedades e gradativamente esvaziada pela imigração. Pelo que soube, restam alguns remanescentes, mas a maior parte dos Romanos foi embora daquele pedaço de chão. Tampouco sei se é identificada, hoje, como comunidade quilombola. Talvez devesse. O que me lembro bem era do orgulho dos Romanos de si mesmos e das certezas que cultivavam. Naquela época, eu nada sabia a respeito de teoria da conspiração. Anos depois, trabalhando no Banco do Brasil, conheci um rapaz, bancário, que dizia também que o homem não havia pisado na lua.


E argumentava que tudo não passava de um mirabolante plano dos norte-americanos para desmoralizar os "soviéticos" (existia uma URSS, então). Ele falava com tanta convicção dessa "teoria", que, eu, na minha arrogância de jovem, só lhe respondia com um sorriso de desdém. Pode ser que, mesmo hoje, fizesse o mesmo. Bom, mas o fato é que, desde então, tenho uma grande curiosidade sobre as teorias da conspiração.

 Agora, nestes dias, deparo-me com um fato inusitado, ligado ao Apodi, revelador de que quem o produziu se alimenta de uma teoria da conspiração. Trata-se da aprovação pela Câmara Municipal da cidade de uma lei "proibindo a ideologia de gênero" (sic) na grade curricular das escolas do município. Isso mesmo! Em Apodi, a partir de agora, nas escolas do município, somente se pode dizer que menino é menino e menina é menina. Por que isso? Ora, os nobres edis locais temem que a "ideologia de gênero" se dissemine pelos territórios da chapada e do vale e destruam os valores familiares naqueles rincões.

 Vocês podem rir, mas a coisa não é tão divertida assim... Isso merece uma reflexão mais substantiva. Menos passional também. Por enquanto, o que eu gostaria de chamar a atenção mesmo é para a teoria da conspiração que forneceu justificativa para a lei: haveria uma mobilização esquerdista para "obrigar" menino a ser menina e o contrário. Como toda teoria da conspiração, essa também cria uma realidade à parte, um mundo que só existe nela e que é imune ao confronto com as evidências do mundo.

E, ao contrário daquela teoria que diz que os americanos nunca pisaram na lua, essa tem consequências sociais muito desastrosas: alimenta a intolerância para com a diferença e conduz ao empobrecimento da alma ,e, o pior, tudo justificado a partir de uma patamar religioso que se legitima socialmente pelo "amor ao próximo".

Cá entre nós, prefiro a lembrança das ideias de Elias; elas não implicavam na negação de visibilidade para ninguém, apenas expressavam a desconfiança popular em relação às narrativas dos "doutores" e do povo da cidade.

Edmilson Lopes Jr, Doutor em Educação.

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